Por Fernanda Cerântola

Quem é Vivienne?

 

 

   Designer autodidata, uma mulher subversiva que começou no DIY e chegou nas maiores passarelas do mundo, trago aqui neste meu primeiro post a  famosa estilista punk: Vivienne Westwood.

 

   Com um breve resumo sobre sua história de vida e um foco maior na análise da sua trajetória na cultura subversiva, começo contando que Vivienne sempre carregou consigo o gosto pela customização (modificando seu uniforme na escola ou criando peças novas a partir do que já havia em casa, por exemplo) e quando se casou com Malcolm McLaren (o moço que viria a se tornar o empresário do Sex Pistols) começaram a trabalhar juntos a partir da identificação do gosto por música, subcultura e moda. Como também amavam um DIY, criavam peças de roupas estilo Teddy Boy (subcultura britânica característica dos anos 50) no início de tudo. Começando nos fundos de uma loja, customizando peças de roupas e saindo pelas ruas de Londres vestidos das próprias ideias, pouco a pouco passam a ser vistos por músicos e pessoas de maior relevância na mídia.

 

 

Vivienne e Malcolm, os próprios modelos da sua marca, levando para as ruas sua identidade para ser vista. 

 

   Em 71 eles abrem a sua primeira loja oficial, chamada “Let It Rock” e seus designs eram basicamente compostos por muito couro, camisetas rasgadas e descosturadas, alfaiataria desconstruída, muitas ferragens penduradas (alfinetes, correntes, rebites, spikes), apliques e bricolagem, e principalmente: frases de forte efeito em suas camisetas, como por exemplo “Too Fast to Live, Too Young to Die”, o que consequentemente acabou gerando um desgosto por parte da sociedade em sua cultura conservadora (inclusive foram até processados por obscenidade). Mas como ótimas personalidades subversivas que são, isso foi só o combustível para terem ideias ainda melhores.

 

Uma peça original da época sendo vendida na internet por em torno de 3.000/4.000 libras. 

 

   Acrescentam o tecido vinil em suas peças que ganham um mood bem fetichista, embaladas pelo slogan “roupas de borracha para o escritório”, e assim criam uma fachada enorme na frente da loja que passa a se chamar “SEX” (em letras pink gigante, diga-se de passagem). A essa altura, a loja já se tornava um espaço underground onde reunia as criações do casal sendo vendidas junto com encontros dos integrantes do Sex Pistols (cujo nome claramente foi influenciado pela marca do empresário). Nisso, Vivienne passa a criar toda a identidade visual da banda, com figurinos que disseminaram a cena punk. A ideia de Malcolm era criar um visual completamente oposto ao hippie ou aos Beatles, que como todos sabem, eram o grande fenômeno da época. A diferenciação estética tornou o visual punk muito característico, e principalmente, comunicativo – a combinação de peças de roupa que EXPRESSA alguma coisa – no caso, algo mais ou menos como “eu jamais quero me parecer como a grande maioria das pessoas”.

A frente da loja SEX <3 

Vivienne e Sid Vicious no palco de algum show do Sex Pistols. 

Duas das t-shirts mais famosas nessa linha de “primeiras criações” do casal. 

Siouxsie vestindo uma “Sex Seditionaries Cowboys t-shirt” by Vivienne Westwood & Malcolm McLaren, 1976

 

   Acredito que o principal veículo de mensagem de protesto e auto-expressão no trabalho deles eram as camisetas, que possuíam fortes e polêmicas estampas e escritas, de uma forma engraçada e provocativa. O produto era barato, mesmo demorando horas para customizá-las (com rasgos e queimaduras feitos com cigarros, coisinha bem intimista mesmo), às vezes sujas de alguma outra coisa, enfim (e hoje valem uma nota, quando procuramos alguns modelos originais da época sendo vendidos na internet – busque por “Seditionaries, Vivienne Westwood” no google).

 

Pegue uma ideia, talvez da alta arte, talvez da cultura popular existente; justaponha-a àquilo que desafie a intenção original da imagem ou que simplesmente choque. Coloque-a centralizada cruzando o torso ou algo assim de forma que algum detalhe apareça apenas com uma inspeção atenta. Venda. Surpreenda.” (Kelly & Westwood, 2016).

 

E por quê ela é TÃO interessante? 

   

 

   Com o sucesso de God Save the Queen lá em 1977, o estilo punk, o anti-establishment e estética DIY invade completamente as ruas de Londres. O que eu acho mais interessante na história toda é pensar em como tudo começou e onde ela chegou – se tornando uma das maiores estilistas da história, desfilando nas maiores passarelas do mundo.

 

   Uma frase recente dela, que me faz admirá-la ainda mais: “Buy less, choose well and make it last”, ou seja: “Compre menos, escolha melhor e faça durar“. Como grande admiradora de moda vintage, um dos principais pontos que vivo ressaltando é a qualidade das peças dessas épocas antigas, que a gente encontra por brechós atualmente, e elas permanecem intactas mesmo usadas, mesmo tendo já se passado anos e anos de sua fabricação – e fica ainda mais em destaque por convivermos com tanta fast fashion louca fazendo roupas em excesso e de má qualidade, que logo vão para o lixo. É triste ver como a roupa passou a ser descartável e nesse ritmo de mentalidade frenética que temos hoje, as pessoas dificilmente olham para os detalhes das suas peças, valorizam como um item que teve um investimento, pensam e analisam antes de comprar. Acho que tem tudo a ver com o ato de se conhecer também, saber o que quer e fazer seu próprio estilo mesmo, comprando de maneira mais certeira ao invés de comprar pela “pressão social” (para se encaixar numa trend, por exemplo). A roupa ultrapassa a função de apenas vestir o corpo e passa a dar significado a algo, como a um indivíduo ou grupo – e foi isso que Vivienne explorou com o seu DIY chocante. 

 

   Sempre penso na Saloon 33 (como grande fã e admiradora que sou <3) como uma das marcas que me transmite essa sensação de que existem designers preocupados com qualidade, bons tecidos duráveis (ou seja, que levam em consideração o investimento do dinheiro do cliente), e ao mesmo tempo valorizam uma estética interessante, composta por muitas dessas referências de subculturas, referências musicais vintage por exemplo, possuindo (ao meu ver) a moeda mais cara: originalidade. Não foi à toa que escolhi esse tema para começar a escrever aqui.

 

“Os ingredientes do punk são vários. A ideia de pessoas usando roupas um pouco grandes ou um pouco pequenas – como roupas usadas ganhadas de alguém e tudo o mais. Isso tudo era parte de um visual. E roupas ferradas. E pessoas que tinham uma vida mais difícil e mais dramática do que as nossas. Tudo tem a ver com histórias”. – Kelly & Westwood (2016). 

A da esquerda ironizando a rainha da Inglaterra e a da direita, ironizando provavelmente a sexualização/proibição do mamilo feminino (como bem sabemos, uma estampa relevante até hoje :D) 

 

   Percebemos então que por trás de todo o negócio, é claro que existiu uma boa estratégia que levou a mensagem que ela queria passar pro mundo. Sempre acreditando muito forte nesses valores de discordar daquilo que acredita ser errado, conceitos políticos e sociais atrasados e limitadores, questionando e fazendo as pessoas pensarem. Esse é o poder de uma roupa, de um visual. O resultado disso é ver pessoas que nasceram após a era punk anos 70 que usam e se identificam com jaquetas e cintos de couro com spikes por exemplo, mesmo não fazendo parte do movimento – ou seja, conseguimos entender o fenômeno cultural que o punk causou. Incontáveis peças que vemos em muitas e muitas marcas desfilando em passarelas atuais os elementos e combinações que o punk trouxe pro mundo da moda. 

 

Em minhas considerações finais,

 

   É óbvio que com todo o sucesso, podemos imaginar o tamanho da crítica e repressão que ambos sofreram da mídia e da sociedade, sendo considerados até “inimigos britânicos”. Ainda assim, existia uma parcela da mídia que também estava interessada no movimento cultural e estético que eles estavam exercendo. Também é importante observar o “movimento contrário” na indústria da moda, onde a tendência sempre ditada pelas grandes e riquíssimas marcas, passar a ser criada nas ruas, com pequenos empreendedores sendo os criadores de um movimento que mais tarde seria apropriado pela grande indústria.

A alfaiataria evolui para modelagens diferenciadas e ainda mais interessantes, permanecendo nos tecidos xadrezes, simbolizando de fato uma evolução de uma mesma peça que foi tão usada na década de 70 – o blazer xadrez. 

 

   Com o fim dos Sex Pistols 1978 e o estilo punk disseminado no mainstream, Vivienne e Malcolm passam a elaborar um crescimento da marca. Em 1981 fazem seu primeiro desfile em Londres e a partir daí o reinado Westwood começa a tomar forma e chegar ao sucesso mundial que vemos hoje. Ela se separa de Malcolm, assume a carreira solo e faz sucesso atrás de sucesso a cada desfile. Os anos 80 e 90 foram um auge: com muitas referências históricas, romantismo e era vitoriana, ela segue fazendo roupas refinadas e desfiles chiquérrimos! O espartilho se tornou uma das suas maiores marcas, além dos tecidos como tule, tweed, tartan e saias com crinolinas. Para os acessórios, muitas jóias exageradas e luvas. Dos alfinetes pendurados nas roupas sujas, ela mostrou que cabe em uma mesma pessoa os colares de pedra caríssimos.

Janelle Monáe usando o famosíssimo colar de pedra Vivienne Westwood. 

 

   As roupas ganham um requinte mas a filosofia e a atitude ainda carrega o punk quando ela continua com suas sátiras e ironias à elite aristocrática do século XIX, por exemplo. Ela nunca perdeu a sua identidade e sempre citou, de certa forma, os acontecimentos do mundo em suas criações inusitadas, continuando a expressar sua crítica social e a tentativa de fazer o público pensar a respeito, agora em escala mundial. Combinando a alfaiataria ao erotismo e fetichismo, podemos dizer que Vivienne Westwood é o punk no meio da alta-costura.Uma das poucas pessoas do mundo da alta-costura que conheceu a verdadeira pobreza” (Kelly & Westwood, 2016).

Vivienne meets Lady Di <3 

A ironia chic que nunca saiu da essência de Vivienne. 

Chique e clássico de passarela but make it: sacola na cabeça

Conhecidíssima por seus corsets com pinturas estampadas. 

Peça de 1994. 

Esse é um ótimo exemplo de como a essência do punk permanece nos seus artigos de luxo atuais: a estampa bleach (descolorida), técnica bastante usada no DIY com água sanitária para dar esse efeito destroyed nas camisetas. 

   Hoje, aos 80 anos, ela continua criando e é fortemente conhecida por lutar por causas ambientais, direcionando o dinheiro que ganha com a marca a projetos e organizações (como Anistia Internacional, Conselho dos Refugiados, PETA, Friends of the Earth, Greenpeace, entre outras). Atualmente, sua produção se preocupa com o impacto ambiental (usando algodão orgânico por exemplo). Recebe críticas por trabalhar na indústria de luxo, mas acredita que “a moda e o ativismo se ajudam”. Percebemos que seu objetivo final sempre foi esse, e o punk foi o meio para este fim. Vivienne é o centro da moda inglesa há 34 anos, considerada uma das melhores estilistas do mundo.

Vivienne na Harper S Bazaar. 

   Finalizo com a seguinte frase dela:

 

“Podemos apenas tentar ser o melhor possível e fazer o melhor possível. Se não for assim, para que sair da cama?” (Vivienne Westwood)

E encerramos com esse deslumbre de mulher que exala a essência do punk <3

 

Fernanda Cerântola tem 24 anos, é estilista, ilustradora e apaixonada por falar das referências vintage de moda, arte e música – suas principais fontes de inspiração pra criar! Comunica tudo isso através da escrita, da criação de imagens e batendo papo com profundas reflexões sobre cada assunto lá nos storys do seu Instagram: @fernanda.cerantola

 

 

 

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