“At a very young age, I decided I was not going to follow women’s rules.” — Joan Jett

Por Fernanda Cerântola

 

   The Runaways, filme de 2010 que conta um resumo da história real dessa banda que foi um sucesso explosivo (não é à toa que Cherry Bomb é a música principal) e que se desfez em pouquíssimos anos. Particularmente, esse foi o primeiro filme que assisti nessa temática “meninas na cena rock” lá com meus 14 anos (mesma idade que elas tinham na época em que a banda se formou) e desde então posso dizer que foi um amor à primeira vista (acho que é o filme que mais assisti na vida). Muita coisa mudou dentro de mim desde então – pra melhor e mais selvagem, claro. 

 

   Essas meninas tiveram coragem de serem quem elas queriam ser, e sabemos que o cenário social nos anos 70 era ainda mais aprisionador para mulheres do que é hoje – aquele famoso pacote de “meninas não podem fazer isso ou aquilo, é feio e vulgar”. Mas óbvio que bancar ser diferente e bancar viver do seu sonho sempre tem um preço, e sendo mulheres adolescentes custa ainda mais caro quando se está vulnerável nas mãos de um homem adulto, que no caso é seu empresário.

 

As fotos de backstage da época deixam bem clara a inocência adolescente delas fora dos palcos. 

 

   Além de analisar o trabalho de figurino impecável do filme, esse texto também será uma análise sobre o que essas meninas fizeram e o legado que deixaram para as próximas gerações.

 Em um breve resumo sobre a história da formação da banda, tudo começa em Los Angeles – Califórnia (1975) quando duas meninas, uma guitarrista (Joan Jett) e uma baterista (Sandy West) que já faziam um som juntas e tinham sede por expandir esse amor pela música, conhecem o produtor musical Kim Fowley – que acaba gostando do trabalho delas. 

Joan e Sandy, bem no início da fama. 

 

   O filme mostra o quanto ele viu ali uma ideia milionária: mulheres fazendo o que até então só homens faziam. Seria um ótimo produto colocá-las em cima de um palco com toda aquela efervescência hormonal da adolescência. Encontram as outras integrantes para compor o grupo e algumas versões de formação depois, chegamos em: Joan Jett e Lita Ford nas guitarras, Cherie Currie nos vocais, Sandy West na bateria e Jackie Fox no baixo. Essa última é a única que não é mencionada no filme e veremos o motivo mais adiante.

 

Jackie Fox, Joan Jett e Lita Ford em um quarto de hotel. 

 

   Após muitos shows pequenos e locais, em 76 elas conseguem um contrato com a Mercury Records e lançam o álbum de estreia “The Runaways”, com uma tour pelos Estados Unidos e shows esgotadíssimos. É interessante como cada uma tinha uma referência para se inspirar: enquanto Cherie se inspirava em David Bowie, Joan Jett mirava em Suzi Quatro. Lita Ford em Jeff Beck e Ritchie Blackmore, Sandy em Roger Taylor e Jackie Fox em Gene Simmons

 

Cherie Currie, a vocalista que fazia muita referência a David Bowie com seus looks de palco.

Joan Jett com a sua clássica jaqueta de couro cheia de pins. 

 

Sandy West à direita e Jackie Fox à esquerda. 

 

Lita Ford no início da carreira em The Runaways e em seguida uma foto que mostra a evolução em sua carreira solo nos anos 80 (onde ficou conhecida como “rainha do metal”). 

 

   Em 77, no segundo álbum “Queens of Noise” a banda estreia suas turnês mundiais e se torna um real movimento punk rock, se unindo também com outras bandas de sucesso como Ramones, the Dead Boys, The Damned, Generation X e Sex Pistols. Na mesma época fizeram um importante show no Japão (um dos poucos grupos que chegavam a esse sucesso) com vendas de álbum atrás apenas de ABBA, Kiss e Led Zeppelin.

 

Joan, Lita e Jackie. 

 

O mais famoso figurino de palco da Joan: o macacão vermelho. 

 

Sessão de autógrafos em 77. 

 

1978.

 

 

No palco e nas fotos promocionais: mulheres com aparência mais adulta, sexy e selvagem.

 

Mais uma imagem que mostra bem os bastidores da vida delas: Cherie no seu quarto cheio de pôsteres lendo uma revista, um clássico adolescente. 

 

   Mas parando para analisar o figurino do filme,

 

“Eu quero o que ele está usando”.

 

   O trabalho de figurino que fizeram nesse filme é incrível. O que mais me encanta é como foram fiéis a toda a estética e os detalhes de cada look, reproduzindo de forma idêntica aos figurinos originais que elas usaram na época dos shows (e não, eles não usaram os originais! Foram todos refeitos). O roteiro conta com a participação de Joan e Cherie, que são as protagonistas da história (interpretadas por Kristen Stewart e Dakota Fanning, respectivamente).

 

Kristen Stewart à direita no set de filmagem e uma foto original de Joan e Cherie no palco, à esquerda. 

 

   O visual todo da banda exala a essência glam rock anos 70 cheia de brilho, paetê, tecidos metalizados, botas plataformas de cano alto, maquiagem prateada e claro, os cabelos repicados estilo shaggy hair. Também conta com influências punk das bandas de garagem.

 

Dakota Fanning como Cherie Currie. 

 

   Os looks da Cherie são compostos por muitas camisas sociais estampadas (bem característica forte dos anos 70) com coletes, calça jeans boca de sino, macacão jeans ou de sarja, botas plataformas e MUITAS referências ao estilo de David Bowie, desde os lenços no pescoço e as peças brilhosas nos looks noturnos até as camisetas usadas dentro de casa, com o nome dele propriamente estampado. 

   “We love your look. We’re choosing you to be a part of rock n’ roll history” – Kim Fowley quando descobre Cherie em uma festa. 

 

 

Camisa sempre por dentro da calça de cintura alta, justa em cima que se alarga bem na barra. Dakota Fanning em ambas as imagens. 

Na performance pro show de talentos da Cherie, onde ela corta o próprio cabelo e faz a própria maquiagem, eu acho interessante como eles usam a famosa Disco Pants dobrada até o joelho com uma meia calça brilhante e sandália (sempre plataforma).

As botas plataformas bem 70s glam rock (e que me lembram diretamente os calçados do Kiss). 

 

Nos looks da Joan, ela quase sempre usa uma peça em couro (ou a jaqueta ou a calça), calça jeans boca de sino (unânime entre todas elas), regata branca ou alguma t-shirt estampada, o óculos aviador, pulseiras e cinto de couro e de vez em quando uma gravata em cima da regata. 

 

Calça de couro em praticamente todos os looks da Joan. 

 

O figurino mais famoso de Cherie Currie (à esquerda), a lingerie constituída por um corset branco e meia calça arrastão, é reproduzido com todos os detalhes para interpretação de Dakota Fanning (à direita). O tipo de look bem comum vermos hoje em dia em qualquer perfomance de diva pop, mas pra época era um escândalo. 

 

A riqueza de detalhes: até a linha prateada, quase imperceptível ao redor do colete, também existe no figurino criado para o filme. 

 

Nos looks do dia a dia eles também deixam bem claro o quão Cherie era fã de Bowie. 

 

O macacão vermelho/laranja de sarja. Na foto da direita, Dakota Fanning e Cherie Currie no set de filmagens. 

 

Joan Jett e Kristen Stewart com a famosíssima camiseta que a própria Joan fez (como mostra no filme) escrito Sex Pistols com spray preto. 

O filme também deixa bem claro como Kim Fowley exigiu das meninas uma mudança no seu comportamento habitual para que performassem de uma forma mais agressiva e sexy. 

 

Michael Shannon como Kim Fowley. 

   O enredo finaliza na parte da história em que Cherie sai do grupo por conta de uma briga e por conta de seus problemas com álcool e drogas. O grupo continuou existindo com Joan nos vocais e com novas formações por mais alguns anos, até 1979. 

Cena onde Cherie dá os primeiros sinais de que não está bem. 

 

Matéria original da época. 

Aqui, os figurinistas já colocam um top brilhante mais detonado com o cabelo um pouco mais descuidado no momento em que seu problema com álcool se agrava. 

 

   Com o fim, cada uma delas seguiu seu caminho e como sabemos, o caminho de Joan Jett pode ser considerado o mais conhecido popularmente: ela foi rejeitada por nada mais nada menos que 23 gravadoras, decidindo assim lançar a sua própria gravadora Blackheart Records (tornando-se uma das primeiras artistas do sexo feminino a fazer isso). Fez um sucesso absurdo com a regravação de “I Love Rock n’ Roll” e atualmente está na lista da revista Rolling Stone entre “os 100 maiores guitarristas de todos os tempos”, ou seja: uma contribuição gigantesca para o mundo da música e para as mulheres no rock. No filme, fica bem claro o quanto ela sempre soube exatamente o que queria e o quão persistente era em conseguir o seu lugar fazendo o que amava demais fazer, que era tocar guitarra. A cena do início onde mostra ela tendo aulas de violão e seu professor dizendo “garotas não tocam guitarra elétrica” é um belo simbolismo, que representa qual era o cenário e o que Joan Jett fez nesse cenário. Nunca deixou as circunstâncias definirem o seu caminho e preferiu ser fiel a si mesma.

 

O famoso blazer roxo da Joan, agora já mais madura sendo entrevistada pelo seu sucesso com “I Love Rock n’ Roll”. 

 

   Como garotas muito talentosas, como havia dito anteriormente, cada uma delas seguiu uma carreira (que se eu contar tudo aqui, fica gigantesco demais), então optei por focar em determinados pontos dessa história para tirarmos inspiração e referências, tanto sobre o que fazer quanto sobre o que não fazer. Não tem como analisarmos esse legado e olhar só pras partes incríveis (como a música, os looks e a atitude corajosa de mulher selvagem inspiradora). O filme deixa claro o quão triste foi o problema que Cherie teve com o álcool  (mas que conseguiu reverter algum tempo depois com a reabilitação).

   Mas, voltando àquele ponto de: porque a Jackie Fox não é citada no filme?


   Fox foi uma das poucas que não deu continuidade na carreira musical. Ela se tornou advogada, escritora e fotógrafa. Em julho de 2015, ela revelou publicamente que o empresário Kim Fowley a abusou sexualmente quando ela tinha apenas 16 anos, em 1975. Como eu havia dito no começo do post, é quase impossível existir uma história (principalmente nessa época) onde meninas, mulheres inseridas em qualquer cenário, não sofreram algum tipo de abuso. Ainda mais sendo adolescentes, inocentes e vulneráveis. 

 

   Cherie conta que Kim parecia estar constantemente colocando umas contra as outras: “Não tínhamos ninguém, mulher ou qualquer pessoa, para conversarmos ou para podermos discutir sobre coisas que nos incomodavam, ou se sentíamos que havia crueldade entre os companheiros de banda”. Enfim, acredito que seja importante esse ponto ser ressaltado para compreendermos que nem tudo foi tão maravilhoso assim – fora toda ridicularização e todo o machismo sofrido por parte da imprensa da época, sendo acusadas de estarem prejudicando a imagem da mulher americana direita. 

 

A contracapa do disco continha a idade delas – outra estratégia de marketing de Kim Fowley, deixando explícito que eram adolescentes. 

 

   Por fim, podemos afirmar que The Runaways fizeram história e abriram portas para outras formações bandas de rock constituídas apenas por mulheres, além de contribuírem para inspirar outras meninas a investirem no seu sonho de tocar algum instrumento, seguir na carreira musical, assumir um visual mais ousado e contemplar seus instintos mais selvagens sem precisar reprimi-los – afinal, eles existem em todo e qualquer ser humano. Digo por mim mesma que, ao entrar em contato com essa história pela primeira vez na adolescência, foi como se uma chave tivesse virado na minha cabeça e me levado a dar os primeiros passos no descobrimento do estilo musical e visual que tanto faz parte da minha vida hoje. Quando a gente percebe que essa wild girl que elas citam em Cherry Bomb existe aqui dentro, é um caminho sem volta <3 

 

Cherie e Bowie. 

 

Lita Ford fotografada por Brad Elterman, 1978

 

Sandy e Cherie, 1977

Cherie & Jackie Fox. 

 

Debbie Harry e Cherie. 

 

Cherie e Jackie na turnê do Japão. 

 

Sandy West faleceu em 2006 devido a um câncer de pulmão. Ela foi a primeira mulher baterista a obter popularidade e aclamação da crítica no mundo do rock.

 

1978, a última formação das Runaways e o fim de uma era. 

 

O amadurecimento de Joan Jett que consagrou a sua presença na história do rock <3 

with love, Cherie Currie <3 

 

 

Fernanda Cerântola tem 24 anos, é estilista, ilustradora e apaixonada por falar das referências vintage de moda, arte e música – suas principais fontes de inspiração pra criar! Comunica tudo isso através da escrita, da criação de imagens e batendo papo com profundas reflexões sobre cada assunto lá nos storys do seu Instagram: @fernanda.cerantola

 

Fontes: 

https://www.glamour.com/story/exclusive-the-runaways-costume

https://www.vice.com/pt/article/d38j4v/fotos-astros-do-rock-anos-70

https://www.bradelterman.com/

https://highline.huffingtonpost.com/articles/en/the-lost-girls/

https://mundomel.wordpress.com/2011/05/29/discografia-e-historia-the-runaway-parte-2-the-runaways/

 

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