Por Fernanda Cerântola

 

Corpos dançando sincronizadamente, revestidos com roupas de paetê e lurex, em uma pista luminosa com um globo reflexivo no centro: essa é a cena que já nos vem à mente quando pensamos em cena DISCO. Às vezes, com patins nos pés ou sandálias plataformas com meias brilhantes, uma disco pants justinha ou uma calça flare, camisas mega estampadas com golas enormes. Neste texto, vamos analisar a trajetória dessa era que rege fortemente muitas produções artísticas e musicais até hoje – como começou e que rumo tomou. E claro: com foco na análise da estética, nos visuais e na moda em geral.

O interior de uma casa de festas da Itália, nos anos 60.

Discotheque significa “biblioteca de registros fonográficos” em francês, e esse termo surgiu quando as casas de festa foram proibidas pelos regulamentos da França ocupada pelos nazistas, a terem música ao vivo. A alternativa foi começarem a usar discos de vinil para garantir o som da noite, e lá nos anos 60, o termo chegou nos EUA encurtado como Disco.

Ganhando popularidade na década de 70, a cultura da discoteca tem suas raízes no movimento cultural e musical da comunidade negra e latino-americana. O centro do movimento se deu principalmente na cena underground de Nova York e em alguns países da Europa inicialmente, e a música possui vertentes da soul music, do funk, blues e R&B. Grandes como Stevie Wonder e The O’Jays começaram a incorporar elementos disco em sua música.

South Fallsburg – NY, anos 60

Nessa época, os sintetizadores começaram a ganhar cada vez mais espaço na cena e o ritmo dançante passou a fazer cada vez mais parte da cultura popular. A pista de dança se tornou um local bem influente para a interação social.

 

Sintetizador vintage

Nos anos 70, a cena Disco tem o seu boom e é regida na mídia por nomes consagrados como Donna Summer, Jackson 5, ABBA, Bee Gees, Cher, KC and the Sunshine Band, Chic, The Supremes, Diana Ross, Grace Jones, Gloria Gaynor, Earth Wind and Fire, Chic, Kool & The Gang, Sister Sledge, etc. Totalmente relevantes até hoje, o legado desses artistas inspira milhares de produções de artistas da atualidade (é só a gente prestar atenção e perceber as refs!).

Studio 54, em NY nos anos 70.

Começando por um breve resumo sobre os artistas e seus visuais:

A “rainha do Disco dos anos 70″, Donna Summer é bem conhecida pelos hits I Feel Love, Hot Stuff, Love to Love e Last Dance. Nos anos 80, seu hit She Works Hard for Money foi o primeiro vídeo de uma mulher negra que a MTV apresentou em looping, tocando o tempo todo na TV.

Mais fotos de look dela aqui.

Um dos maiores grupos musicais mais bem sucedidos da história, de praxe todo mundo conhece o ABBA: a banda sueca que foi um dos maiores sucessos da década de 70. Os looks combinando uns com os outros (um clássico vintage).

A gente vê muito jumpsuit (macacão), a introdução da febre animal print (que regeu a próxima década), muito cetim (aquele tecido bem reluzente) e aplicações de algum material brilhante nas peças (tiras de paetê, chatons e pedrarias costurados a mão, etc). E óbvio: os babados das calças boca de sino que combinam com os babados da manga comprida do top no look. Um grande clássico.

 

Frequentadora assídua do Studio 54 (aquela balada de NY, famosa por receber os ícones da época), costumo dizer que Grace Jones é a fonte de referências de vários artistas que vieram depois dela. Modelo e cantora jamaicana, começou na disco music em 1977 e passou a consolidar sua fama a partir daí, tornando-se conhecidíssima nos anos 80. A música é ótima e seus visuais… um mais incrível do que o outro.

O lamê (ou malha metálica), um tecido que foi mega explorado na era Disco, um pouco menos brilhante do que o paetê mas que funciona bem demais no meio às luzes da discoteca.

 

A Cher, que também é um dos grandes símbolos dos anos 70, tem diversos looks icônicos – podemos dizer que é um dos maiores ícones fashion da época. É um visual bem marcado pelos recortes e transparências na pele, a cintura baixa, as plumas e obviamente, muito brilho.

O visual acompanha o talento e a carisma dessa mulher <3

Gloria Gaynor, dona dos hits “Never Can Say Goodbye” (1973) e “I Will Survive” (1979), música que se tornou um hino LGBTQIA+, com uma grande importância até hoje. Enquanto os macacões de paetê brilhavam na noite, os looks do dia a dia seguiam elegantérrimos – camisas com golas bem pontudas e estampadonas, cintura alta com cintos e blazer pra dar o toque chic final.

Esses tecidos brilhantes geralmente são bem trabalhosos e mais difíceis de se costurar – o que nos faz ter ainda mais admiração pelas obras dos designers da época!

Bee Gees – os australianos que possuem um dos álbuns mais vendidos da história: a trilha sonora do filme Embalos de Sábado à Noite, que os projetou para um gigantesco mainstream com os hits Stayin’ Alive, You Should Be Dancing, More Than a Woman, Night Fever e How Deep is Your Love. Sobre os looks, mais um clássico: peças que combinam entre si. Um mesmo blazer, de cores diferentes (ou de cores iguais mas com um detalhe diferente).

 

Jackson 5 (ou The Jacksons), formado por irmãos talentosíssimos em 1964 e que claro, projetou Michael Jackson pra carreira solo nos anos 80 (Don’t Stop Til You Get Enough, música de 79, também rege as playlists de “70s Disco”). O grupo cuja sonoridade era bem focada no R&B e Soul, foi bem pioneiro nesse estilo de apresentações ao vivo vestindo looks combinando entre si, com modelagens diferentes e coloridas, bem “uniformizados” de um jeito deslumbrante. A vestimenta do artista acompanha o talento e a performance, e isso projeta ainda mais a arte pro público que assiste fascinado.

Se o gênero musical era sobre a dança, muito se deve a ele – que inovou completamente a indústria musical com as suas performances, sempre muito bem vestido. Além disso, os videoclipes também passaram por uma revolução graças ao Michael Jackson (novos efeitos visuais tecnológicos que são bem interessantes de serem assistidos hoje, e vermos o que os produtores conseguiam criar naquela época com pouca tecnologia e muita criatividade).

KC and The Sunshine Band – grupo musical norte-americano formado em 73 e muito conhecido pelos hits That’s the Way (I Like It), Keep It Comin’ Love, Give It Up, entre outros. A gente encontra poucas imagens na internet que dê pra visualizar bem os looks (é melhor a busca por vídeos, apresentações ao vivo), mas eles basicamente são donos das músicas mais simbólicas da época, que mais tocam em qualquer festa até os dias de hoje. Blazers + calças combinando, que dão a impressão de serem uma peça só (onepiece), todos trabalhados nas pedrarias e aplicações.

Earth Wind and Fire – ficaram conhecidos pelo grande público após criarem a trilha sonora do filme That’s The Way Of The World, em 75. Seus principais hits são September, Let’s Groove e Boogie Wonderland.

Kool & The Gang – majoritariamente conhecidos pelo hit Celebration (outro grande marco desse gênero musical). Regidos por jazz, R&B, Soul, Funk e claro, Disco. Também são famosos por Get Down On It, Ladie’s Night, Fresh e Cherish. Outra banda que é difícil de achar imagens nítidas na internet pra análise das roupas, mas os vídeos e as apresentações ao vivo são impecáveis em tudo.

CHIC – os hits Dance Dance Dance, Everybody Dance, Le Freak, I Want Your Love, Good Times e My Forbidden Lover são deles. As apresentações mega instrumentais, com o palco cheio de músicos tão sincronizados e talentosos (pianistas, violinistas e por aí vai) com a elegância das vocalistas – sempre com uma roupa brilhante, um penteado bem feito e uma maquiagem marcada.

Girlband de sucesso nos anos 60, The Supremes: o grupo formado por Florence Ballard, Mary Wilson e Diana Ross. O sucesso do grupo foi gigante e basicamente pavimentou o caminho para que futuros artistas de soul e R&B ganhassem mais espaço na década seguinte. Elas também se aventuraram pela sonoridade disco, e podemos dizer que foram umas das pioneiras nesse mood dos looks conjuntinho, combinando entre si.

Após a saída do grupo, Diana Ross se lançou na carreira solo em 1970 e nessa década já emplacou os hits Upside Down e I’m Coming Out. Sempre deslumbrante, melhor a cada look e dona de uma voz maravilhosa.

Sister Sledge – We Are Family e He’s the Greatest Dancer são as músicas que com certeza você já escutou delas. Girlband de sucesso, usavam bastante blusa ou top amarrado na frente em um laço com calça. A disco pants vermelha também são um grande marco da época.

Enquanto em NY existia Studio 54, aqui no Brasil inaugurou em 76 no Rio de Janeiro uma balada chamada Frenetic Dancing Days Discotheque. As garçonetes do lugar eram um evento a parte – bem vestidas e fazendo um número no final da noite, fizeram tanto sucesso que acabaram formando o grupo musical As Frenéticas, donas dos hits Perigosa e Dancing Days (que com certeza, você já ouviu pelo menos uma vez na vida).

Figurinos extremamente artísticos, modelagens bem surrealistas e combinando entre si: iguais, porém diferentes. A mente do designer vai longe.

Em 77, estreou o filme Saturday Night Fever (na nossa sessão da tarde: Embalos de Sábado à Noite), roteiro baseado em um artigo de um jornalista britânico sobre a cultura Disco de NY. Foi um grande sucesso da época e representa parcialmente a cena da época. Podemos perceber, pela escolha do elenco desse filme, que a história do gênero musical acabou tomando rumos parecidos com o do rock n’ roll (obviamente, contra a sua vontade).

Outro filme da época: Roller Boogie, um musical de 1979 que mostra a inserção dos patins na dança – uma cultura que teve seu auge nos anos 70.

A patinação teve grande papel como ferramenta política na cultura negra – o livro “Race, Riots and Roller Coasters: The Struggle over Segregated Recreation in America” fala especificamente sobre isso. Também deixo aqui dois textos (um em inglês e outro em português) que abordam o assunto.

Podemos concluir então que a moda, basicamente, se caracterizava pelo shape (o formato, “desenho” das roupas no corpo) de blusas largas, cintura justa e barra de calça também largas. Muitos sapatos plataformas (entre os homens e as mulheres). Animal print, tecidos com pelo menos um mínimo de brilho ou bem estampados, entre outros itens que se misturam um pouco com o estilo glam rock que também estava acontecendo nos anos 70 (quase como se um pegasse emprestado do outro e usasse a sua maneira). Resumindo: uma extravagância chic.

Nas maquiagens, o blush marcadão e as sombras coloridas já estavam ali, dando o tom da estética da próxima década. Batom vermelho + sombra colorida + blush marcado eram o hit. E claro, a pele bem iluminada.

Farrah Fawcett (e seu penteado clássico 70s) vestindo um vestido de lamê (ou malha metálica) e Diana Ross com body decotado, transparência, paetê, pelúcia e toda a extravagância chic possível.

Por fim,

A Disco Music surgiu, fez um sucesso gigante e atingiu o mainstream muito rápido, mas logo “saiu de moda”. Tudo que é extremamente exposto, geralmente, fica saturado de fato. Mas em julho de 79, aconteceu um evento que ficou conhecido como “Disco Demolition Day”, uma espécie de “protesto” (assim chamado pelos envolvidos), onde um popular DJ de rádio de Chicago convidou cerca de 80 mil pessoas em um jogo de baseball (um público predominante formado por homens brancos adultos) a participarem da euforia ao dinamitaram uma montanha de LPs de disco music no estádio. Era nítido o ódio americano pelos hits que dominaram as rádios da época. Uma música dita como “abusada, debochada e extravagante, ridícula e assumidamente gay”. E claro, originada por artistas negros… difícil demais para a sociedade americana deturpada tolerar tamanha arte ganhando destaque na mídia.

O som acabou evoluindo para os gêneros do synthpop, new wave, pop, eletrônico instrumental (e por aí vai) que dominaram os anos 80. Nesse texto, o autor explica mais profundamente sobre esse cenário do ódio ao Disco. Mas como podemos observar, estavam enganados pois os hits são um grande sucesso até hoje. Quando um disco hit toca em uma festa, dificilmente as pessoas não se animam instantaneamente pra dançar e na minha opinião, essa é a grande magia desse som: todo mundo se diverte muito.

Fernanda Cerântola tem 24 anos, é estilista, ilustradora e apaixonada por falar das referências vintage de moda, arte e música – suas principais fontes de inspiração pra criar! Comunica tudo isso através da escrita, da criação de imagens e batendo papo com profundas reflexões sobre cada assunto lá nos stories do seu Instagram: @fernanda.cerantola

 

Referências bibliográficas:

https://mondomoda.com.br/2021/02/13/disco-music-historia/

Disco: o movimento que teve Dancin’days como marco no Brasil


https://eletrovibez.com/historia-da-dance-e-disco-music/
https://www.vintag.es/2017/08/29-stunning-photos-of-dancefloor-styles.html?m=1
https://www.buzzfeed.com/gabrielsanchez/pictures-that-show-just-how-crazy-1970s-disco-really-was
https://www.buzzfeed.com/gabrielsanchez/pictures-that-show-just-how-crazy-1970s-disco-really-was?utm_term=.exj1P9bQmP&epik=dj0yJnU9UExtM3BOa3hSVEk2TmpKSHl6dXJ3a2NvZ2JPVDB3TDAmcD0wJm49Z2xVOGY3YlFlT2FnR3RNQVVjdkMtZyZ0PUFBQUFBR0dLNS13#.srQJQGng0Q
https://www.vintag.es/2017/08/29-stunning-photos-of-dancefloor-styles.html
https://www.blkgirlculture.com/blog-2/the-night-disco-died-the-racist-amp-homophobic-end-to-disco
https://www.capesymphony.org/blog-news/blog/218-where-did-disco-come-from
https://i-d.vice.com/fr/article/vbax5a/sexe-paillettes-et-lasers-bienvenue-dans-les-clubs-les-plus-fous-de-lhistoire

Amazing Color Photos of Teenage Dance Parties and Disco From the 1960s and 1970s


https://groovyhistory.com/black-roller-skating

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