Por Fernanda Cerântola

A década de 80 foi marcada por diversos estilos e movimentos culturais, todos muito bem unidos pela essência da extravagância. Um deles teve suma importância não só para a história da moda, mas também para a história das mulheres no mercado de trabalho: a alfaiataria das businesswoman. Tailleurs, ternos, blazer com saia, camisas com gravatas junto com uma maquiagem carregada, cabelos e acessórios volumosos – essa era a imagem que mais estampava as capas das revistas. Pela primeira vez, vimos as mulheres em um lugar de liderança nas mídias (ou pelo menos, algo próximo disso). 

O contexto histórico 

A gente sabe bem como funcionava a estrutura social ali por volta dos anos 50 e 60, e onde era o lugar comum da maioria das mulheres: dentro de casa, servindo ao marido e ao lar. Sabemos também que os anos 70 foram marcados pelos movimentos que exigiam liberdade (social, política, sexual, cultural e por aí vai). Já os anos 80 é conhecido pela era da informação, das novas tecnologias e da inventividade individual (como diz Deose Sabbg Thamer no livro A moda dos anos 80), quebrando regras que até então eram seguidas à risca – e claro que isso refletiu na moda.

 

É também nessa época que as mulheres dão os primeiros (e importantes) passos ao atingirem novos e altos cargos trabalhistas, principalmente nos Estados Unidos e Europa. Outro fator que também influenciou o contexto histórico foram os acontecimentos das duas guerras mundiais no século XX e aos poucos, a mulher passa a atuar no mundo de uma outra maneira – enquanto os homens estariam na guerra, suas esposas saem de casa em busca de emprego. Dessa forma, quando chegamos aos anos 80, a ideia de priorizar a carreira já está cada vez mais disseminada, podendo também finalmente usufruir de alguns direitos básicos conquistados pelo movimento feminista, depois de anos de luta.


As propagandas, a mídia, revistas e o marketing em geral exploraram massivamente esse arquétipo da mulher no mundo dos negócios – em uma postura sempre elegante com um ar de competência. 

 

A sede de conhecimento e de agarrar a independência fez com que as mulheres se lançassem rápida e massivamente no mercado de trabalho, contribuindo para a origem dos Yuppies (Young Upwardly-Mobile Person ou “Pessoa Jovem em Ascensão”), termo usado para se referir aos jovens profissionais e ambiciosos no início dos anos 80. 

 

Pouco a pouco, as mulheres se tornam mais confiantes e adquirem um maior poder de escolha de seus trajes, assumindo cargos até então ocupados apenas por homens, e assim, passando a exigir roupas que as fortalecem profissionalmente. Em um ambiente dominado pelo machismo, se viram obrigadas a se equiparar aos homens para passar uma imagem de competência e capacidade para realizar as mesmas tarefas, e é nesse contexto que a alfaiataria feminina se insere. As revistas da época nos mostram o quanto esse movimento foi explorado pela moda, sempre protagonizando mulheres em uma postura imponente, firme e independente. Mas claro, não é como se tudo estivesse funcionando de um jeito maravilhoso – o machismo continuava existindo, daquele jeito agressivo que a gente bem sabe como era nas décadas passadas, além de certas minorias não possuírem o mesmo privilégio. 

 

O reflexo na moda e ascensão da alfaiataria 

Na década de 60, Yves Saint Laurent dá vida a uma criação que impactaria e viria a desafiar a noção de feminilidade: o Le Smoking. Aquela vestimenta até então atribuída exclusivamente aos homens passa a fazer parte do guarda roupa das mulheres, e essa imagem se associa totalmente a poder, liberdade, autoconfiança e um sex appeal diferente, digamos assim. 

 

Yves Saint Laurent, Thierry Mugler, Claude Montana e Jean Paul Gaultier são alguns dos nomes que marcaram as passarelas dos anos 80. Influências do passado como Dior, com a criação do New Look no período pós guerra (1947) e Coco Chanel com a criação de calça e terno feminino lá no começo dos anos 30, são importantes acontecimentos para o que viria nas décadas seguintes, e os novos estilistas pudessem explorar essa nova forma do vestuário feminino. 

Passarela e foto editorial de Yves Saint Laurent, na década de 80. 

Foto editorial da Chanel na década de 80 – uma imagem simbólica, a qual a marca explorava bastante o fato de ter sido pioneira em uma moda que estava em alta na época. 

Thierry Mugler, um estilistas que fez história principalmente pelos seus desfiles que mais pareciam um verdadeiro show teatral, elegante e cômico ao mesmo tempo. Se tem uma coisa que fez parte de suas criações, foi o arquétipo da businesswoman, mas de uma forma sempre divertida, bem humorada e muito artística. Seus modelos tinham um toque surrealista, às vezes inspirados em filmes de ficção científica ou em quadrinhos, por exemplo – mas sempre de uma forma elegante, reforçando a mensagem de que o poder e a sofisticação da mulher andam juntos com o seu bom humor descontraído. 

 

Então, as passarelas dos anos 80 se tornam o palco de todo esse simbolismo e poder da mulher de negócios, que obviamente se torna um objeto de desejo e um patamar a ser conquistado. A alfaiataria de ombros largos, retangulares e acentuados dava um ar de liderança, e se aproximava da postura do homem. Assim, a tendência invade os escritórios nas capitais financeiras do mundo e fica conhecida como Power Dressing, em uma tradução livre: uma roupa de poder. A elite feminina volta a investir na alta-costura e a sociedade passa a adotar um consumismo exagerado, iniciando uma era de glamour com trajes ostentatórios cheios de cores vibrantes, brilhantes com combinações inusitadas e bregas (aos olhos da sociedade atual, claro), exprimindo um ar de liberdade na forma de poder usar e combinar o que quisessem. 

 

As características da businesswoman 

Além da alfaiataria, acessórios como chapéus, luvas e jóias também eram bem explorados para o styling e para toda a composição da imagem. E claro, o mais importante de tudo: as ombreiras, um clássico que reforçava a nova postura das mulheres. 

 

Observando as imagens dos editoriais e revistas de moda, a primeira característica que podemos citar são as poses e posturas das mulheres: cabeça erguida, olhando para cima, mãos na cintura ou na altura do rosto. Além dessas poses clássicas, também gostavam muito de explorar algumas poses inusitadas e até meio cômicas, dando aquele ar de bom humor e descontração – uma mulher séria e feliz. 

“Bright-colored, oversized glasses will show everyone that you mean serious business.” – Working Girl (1988). 

Além disso, a maquiagem marcante composta sempre por batom, sombra nos olhos e um exagerado blush é definitivamente a cara dessa mulher de negócios dos anos 80. Nos editoriais e nas passarelas, misturam-se elementos coloridos, divertidos e inusitados.

 

Os chapéus estavam muito presentes nessa estética, principalmente nesse estilo redondo. Tecidos como couro e vinil, além da sarja e do linho clássico da alfaiataria, que vão muito além das cores preto, branco, cinza ou azul marinho (como vemos atualmente) – a principal característica são os tons super coloridos. Os recortes das saias e dos blazers sempre eram compostos por mais de uma cor, muitas vezes com tons neons, desenhos geométricos e o colorblocking em geral. 

Podemos dizer que foi a primeira vez na história que vimos de forma tão naturalizada os elementos que, até então eram considerados da cultura e estética masculina, sendo incorporados a mulheres, criando uma imagem sem gênero. Na mesma revista, era possível encontrar uma página com uma foto com uma mulher de terno, sem maquiagem e com um charuto na mão e na página seguinte, uma mulher de saia ou vestido, muita maquiagem e um cabelo deslumbrante. 

A businesswoman na mídia 

“Perfectly matching your accessories to your blazer shows how organized you are.” – Baby Boom (1987)

Filmes como Uma secretária de futuro (1989) e Presente de Grego (1987) representam bem a mulher no cenário corporativo. Na TV, a série Dynasty (um grande sucesso da época), o figurino é maravilhoso e mostra bem o uso dos largos ombros, vestidos coloridos, muita maquiagem e muitos acessórios – o chic com o toque extra dos anos 80.

Alexis Colby da série Dynasty (1981), interpretada por Joan Collins. A novela americana, que possuía uma trama voltada para o luxo e glamour, trouxe diversos figurinos maravilhosos que se tornaram referência para o Power Dressing.  

Os looks da Princesa Diana, definitivamente, são um marco na história da moda. Sempre com terninhos, blazers com ombreiras coloridas (com a gola e os detalhes de uma cor diferente <3), chapéus, luvas, grandes brincos e colares de pérolas… tudo o que ela usava virava um trend. Sua posição, sua personalidade e toda a sua história eram muito amadas pelo grande público, e seus looks funcionavam como o figurino perfeito para dar vida a tudo aquilo. 

 

Grace Jones em sua clássica foto com o blazer de ombros largos, uma artista que sempre investiu bastante nos looks com terno, blazer e calça combinando, para subir aos palcos e fotografar para os editoriais. 

Madonna foi, sem dúvidas, a maior businesswoman da década de 80, chegando a ser a primeira mulher da história a estampar a capa da Forbes (em 1990). O sucesso gigantesco se deu não só por saber fazer arte como cantar e performar, mas também por saber vender seu trabalho. Muito conhecida por ser uma boa marketeira, explorou muito a imagem da mulher de negócios ali no fim da década de 80 e começo dos anos 90, como no clipe de Express Yourself (1989) e na Blond Ambition World Tour (1990). Com letras que afirmavam sempre a independência, sexo, expressão artística e liberdade, ela fez sua marca como ninguém – além de ser uma figura de inspiração pra muitas mulheres. 

 

Então, podemos concluir que: 

 

De fato, nos anos 80, as mulheres alcançaram lugares que jamais foram ocupados antes por suas mães e avós, por exemplo. Mas, além desses terem sido apenas os primeiros passos restritos a uma pequena parcela da população, também tivemos a origem da famosa dupla jornada de trabalho. Tornaram-se chefe de família, mas ainda se submetiam as pressões no emprego e na sociedade em geral – e com a obrigação de estar sempre bonita e impecável, jovem, malhada e bronzeada, inteligente, “masculina” e eficiente, ao mesmo tempo dar conta de cuidar dos filhos, do marido e da casa… convenhamos que não sobra muito tempo para cuidar de si mesma. Nessa trajetória de conquista por seu espaço e independência, foram deixando para trás traços da obediência e da submissão, mas a necessidade de crescer e avançar, quando torna-se mais importante do que tudo, também faz com que a gente se submeta (ainda mais) às regras do sistema competitivo e agressivo. 

Com isso, podemos como sempre, olhar para trás na história e entender como podemos aprender com os exemplos e tentar ser uma versão cada vez melhor, mais equilibrada e saudável – além de claro, usar as imagens e os looks como referência para nos vestirmos hoje, colocando mais autoconfiança e bom humor no dia a dia. No nosso cenário atual com o advento da internet, finalmente podemos ver de uma forma cada vez mais frequente o surgimento de mais businesswomans por aí, mulheres empreendedoras, chefes de empresa e donas de negócios (como a tão amada girlboss da Saloon 33 <3)

 

Com um celular em mãos para o nosso meio de comunicação e fonte de estudos, podemos nos inspirar e nos tornarmos inspiração para muitas outras mulheres que também querem viver do seu próprio negócio, seja ele qual for, de uma forma autêntica e cada vez mais independente. E convenhamos, vestir um lookinho bonito e poderoso que te faça sentir bem consigo mesma, gera ainda mais energia e vontade para levantar da cama todos os dias e escrever a sua história aqui no mundo! 

 

Fernanda Cerântola tem 24 anos, é estilista, ilustradora e apaixonada por falar das referências vintage de moda, arte e música – suas principais fontes de inspiração pra criar! Comunica tudo isso através da escrita, da criação de imagens e batendo papo com profundas reflexões sobre cada assunto lá nos stories do seu Instagram: @fernanda.cerantola

Fontes:

https://www.dazeddigital.com/fashion/article/30253/1/is-power-dressing-a-thing-of-the-past

https://www.vogue.pt/historia-le-smoking-yves-saint-laurent

https://www.vogue.co.uk/fashion/gallery/80s-fashion-catwalk-moments

https://www.fashionbubbles.com/historia-da-moda/o-que-e-new-look-caracteristicas-historia/

https://www.fashionbubbles.com/historia-da-moda/criacoes-de-coco-chanel/

https://www.thechicselection.com/how-rock-80s-businesswoman-look

https://hellogiggles.com/lifestyle/home-decorating/8-power-dressing-rules-fancy-business-women-80s-movies/

 

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