Por Marcela Araújo

 

Falar em definir o estilo de Rita Lee seria não só completamente desafiador como uma completa estupidez. Vamos começar pelo final? Não tem como definir o indefinível. Ela foi/é muitas e todas nós! Ela foi/é a completa subversão até de si e isso é o estilo dela.

Por isso o que vamos percorrer aqui é muito variado, mas no final tudo se encontra e, o final, é isto: a completa e linda expressão de uma individualidade que ao abraçar sua unicidade, abraça todos nós, fazendo no meio de um Brasil conservador, uma luta pela cultura brasileira recheada de muito punk e ridicularização do óbvio e estagnado.

 

Rita quem foi a responsável pelos figurinos e capas icônicas da banda Mutantes e assim como o som, nota-se no estilo dessa fase muita loucura, rebeldia, vanguarda, provocação mas principalmente, experimentação. Muitas das roupas ela pegava de acervos próprios que adquiriu em programas ou emprestado de celebridades da época (como foi o caso desse vestido de noiva, usado na novela O Sheik de Agadir, por Leila Diniz, em 1966). E é na “bagunça“ que a gente vai encontrando sua coesão.

Vamos falar do estilo dela no que se diz ao período ali de 60 a 70, onde dos Mutantes (1966) ela entra na banda Tutti Frutti (1973) e seu estilo passa a ter mudanças nítidas. Nesse primeiro período a gente vê uma Rita bem novinha e se divertindo muito às custas das experimentações sonoras e visuais. Uma Rita que carrega muito do movimento hippie em seu visual, extrema psicodelia, muita evocação do romântico, mas isso digo no que se diz os formatos da sua beleza e das vestimentas, como por exemplo, um cabelo com corte e franjinha bem arredondados (forma do romântico, nos transpassa calmaria), maquiagens como as da icônica Twiggy, uso do veludo, das franjas e chapéus que já flertavam com seu lado bruxona mística. Muito da sua tropicália também era carregada em um mix de estilo naif, em junção com tudo que citamos até aqui.

Make inspirada na Twiggy e fotos com o Mutantes em um mix de psicodelia e misticismo (antes do nome Mutantes inclusive, eles se denominavam Os Bruxos)

 

Look em paralelo com a obra Naif de Djanira da Motta e Silva

 

Revolucionária ela absolutamente sempre foi! Mas aqui de 70 para frente a gente começa a ver de forma cada vez mais nítida, sua rebeldia transgressora em formas e estilo. A adoção de uma estética bem andrógena, as inspirações em artistas como David Bowie, o brilho da discoteca, o glam vivo mas que nunca se mantém somente ao sexy porque isso para Rita seria ainda muito raso, ela inclusive utilizava isto como mais uma ferramenta de deboche (vê-se nos looks bem anti-herói, com cuecas por cima das calças, barriga de fora e plataformas). Como já dissemos aqui, jamais seria uma coisa só. O sexy encontra o agressivo, o glam encontra o mix com as roupas masculinas e assim vamos acompanhando suas fases. Nos seus cabelos, de um loiro ela assume o clássico vermelhão (tom bem quente e enérgico, que faz total jus a sua personalidade) e o corte mais arredondado dá lugar para fios desconexos e bem desfiados, evocando a pegada mais agressiva, ousada e rebelde.

 

Para mim inclusive, é impossível não olhar para essa foto da Rita com o Roberto de Carvalho, feita em 1989 para o disco Flerte Fatal e não enxergar todo o punk do casal Lux Interior e Poison Ivy, do The Cramps.

 

Dos anos 90 para cá seguimos vendo essa rainha abusando de todas as suas facetas: a bruxona mística, a estética boyish, o sexy não importando sua idade, o abuso do mix de estampas ousado carregado de referências hippies e indianas e o que mais ela quiser vir a ser.

Se notarmos, a gente vê claramente se repetindo seus estilos, mas sempre se transformando para sua atualidade

 

Atualmente assumiu sem problema algum, após longos anos de ruivo como sua marca forte e rebelde registrada, o natural dos cabelos brancos. Abraçando a idade em um ato que segue sendo extremamente revolucionário. Mais uma vez ela mostra sua personalidade e levanta um enorme “foda-se” para todo processo patriarcal e midiático que não permite o envelhecer das mulheres. Ela segue com sua força e com a autenticidade do seu estilo que, como vimos até aqui, é um grande mix que faz completo sentido em um encaixar de eternas transformações com uma ideia condizente de autoaceitação em toda, qualquer fase e multiplicidades do seu ser.

 

 

 

Marcela Araújo tem 25 anos, é formada em moda e trabalha com styling, produção e consultoria de imagem. Pauta todo seu trabalho na intenção de ajudar mulheres a se encontrarem e perceberem em si toda força que possuem para mover o que quiserem. Lá no instagram e no tik tok aborda uma série de reflexões e análises sobre imagem e estilo: @marcelarauj_