Por Amanda Fortini Propheta

 

Tudo começou com um sentimento de insatisfação.
Esse sentimento foi sendo alimentado por notícias, olhares, conversas, disputas. Foi tão alimentado que começou a implodir. Implodindo, ele teve que encontrar um lugar pra sair.
Pra onde ele foi?
Pro terreno da Geração Beat.
Um terreno sujo, cheio de sangue e suor, cheio de passos desconcertados e bêbados, com ritmo cortado e cortante.
Mas, nesse mesmo terreno, um enorme império se construiu. Não qualquer império. Este estava à margem. Cheio de poesia, de palavras e, principalmente, cheio de alma.

Geração Beat é o nome dado a um conjunto de escritores e poetas que tiveram o auge de sua produção nas décadas de 50 e 60, nos Estados Unidos. Seus principais expoentes foram Jack Kerouac, Allen Ginsberg e William Burroughs.

Eu definiria a Geração Beat como o espírito dos movimentos contraculturais subsequentes. Em um momento de profunda insatisfação com o status quo, com uma América pós-guerra dentro da caixa, conservadora, materialista, estes três jovens e centenas de outros começaram a desencaixotar vivências, vontades e Arte em palavras.

“Eu vi os expoentes da minha geração destruídos pela loucura, morrendo de fome, histéricos, nus,

arrastando-se pelas ruas do bairro negro de madrugada em busca de uma dose violenta de qualquer coisa,
“hipsters” com cabeça de anjo ansiando pelo antigo contato celestial com o dínamo estrelado da maquinaria da noite,

que pobres, esfarrapados e olheiras fundas, viajaram fumando sentados na sobrenatural escuridão dos miseráveis apartamentos sem água quente, flutuando sobre os tetos das cidades contemplando jazz(…)”

(trecho inicial de Uivo, poema de Allen Ginsberg, tradução de Cláudio Willer)

Este foi o grande uivo dos Beats, ou Beatniks. Gritar pela liberdade de expressão, de pensamento, pela liberdade sexual e pela licença poética. Entre muitos encontros boêmios, regados à jazz e filosofias alcoolizadas, o espírito Beat se construiu.

O que estes jovens não sabiam é que seus gritos ecoariam por longas distâncias. Artistas como Bob Dylan, Patti Smith, Mick Jagger, Joni Mitchell e muitos outros começaram a enxergar os Beats como

referência. Como estilo de vida e pensamento, e viam neles uma fonte de inspiração para suas criações.

Nesse balaio artístico, o Movimento Hippie despontou e a sua base foi o espírito Beat.
Um espírito imprevisível, jovem, liberto e aventureiro. Isso foi costurado em livros, músicas, protestos e festivais.

Quando se fala em Movimentos Contraculturais, com certeza o que nos vêm à mente primeiro é o Movimento Hippie. Woodstock, Beatles, paz e amor, etc e tal. É exatamente aí que entra a reflexão que quero trazer. Uma grande revolução começa de maneira silenciosa.
Os beatniks viviam em subúrbios, sem saber o que fariam no dia seguinte, se teriam dinheiro pra almoçar e jantar. O que eles tinham certeza é que desafiaram a Ordem através da sua Arte.
Não à toa uma das maiores obras do movimento, Uivo, de Allen Ginsberg, foi censurada na época.
Mas eles nunca deixaram a chama da liberdade se apagar. E somente por isso o Movimento Hippie teve a chance de ser tão estrondoso.
E ele foi de fato tão estrondoso que atingiu outros países. O Brasil se inclui nessa.

Autores como Roberto Piva, Ana Cristina César, Cacaso, Chacal e Paulo Leminski tiveram como sua base a Geração Beat e o Movimento Hippie.
Estes criaram um movimento literário brasileiro apelidado de Geração Mimeógrafo ou Marginal.

Com a mesma ideia dos Beats, os Marginais tinham ânsia por vomitar no papel os mais variados temas de suas vidas. Vivências cotidianas, filosofias, insatisfação com a ditadura militar… Tudo o que se pode imaginar. Sempre com a maior liberdade possível. Isso também reverberou na música, cinema, teatro e artes plásticas. São incontáveis os artistas que beberam da fonte da Liberdade.

“Além da influência em manifestações de jovens, havia grupos como o Eco Contemporáneo e Nueva Solidariedad, na Argentina; Nadaístas, na Colômbia… Regimes militares pesados sufocaram os movimentos. No Brasil, a geração beat chegou por volta de 1959/1960, por meio de reportagens em revistas e jornais. Teve leitores atentos como Zé Celso Martinez Corrêa, que criaria o Teatro Oficina, e Luis Carlos Maciel, futuro difusor da contracultura. Com o poeta Roberto Piva, o movimento beat chegou não mais como notícia, mas como diálogo, relação no plano da criação, em seu livro de estreia, ‘Paranoia’, de 1963. Em 1967, traduzi Ginsberg, Corso, Ferlinghetti, Ted Joans e outros, para o espetáculo chamado América.”

(Cláudio Willer em entrevista para o Portal UAI)

A influência dos Beats é definitiva. Como vimos, não só no campo literário, mas em todas as áreas em que a Arte está presente. Eles fundamentaram uma vertente muito importante do pensamento contracultural, insubmisso. Atualmente as reedições de livros da Geração Beat vêm crescendo muito, além da ensaística e crítica literária.

Convido você, leitor rebelde, a se deliciar nas poesias e prosas espontâneas desses artistas tão selvagens e densos. Tenha uma boa viagem.

Amanda Fortini

Lista de indicações:

Uivo, de Allen Ginsberg;

Pé na Estrada, de Jack Kerouac;

Junky, de William Burroughs.

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Amanda Fortini Propheta é graduanda em Letras – Espanhol/Português pela Universidade Federal de São Carlos.
Também é estudante de Astrologia Indiana e trabalha na empresa AstroShakti, com sua Professora PhD Shakti Karahe, uma das principais referências de Astrologia Indiana no Brasil. Apaixonada por música, cinema, literatura, dança, moda, espiritualidade e tudo aquilo que gera uma conexão maior do Eu com o Mundo.

Instagram: @amandafrtn

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